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sábado, 11 de setembro de 2010

As Duas Faces do Sonho


Sentas-te à beira do caminho
Que atravessa a minha aldeia
Pela alvorada
Vês-me sair com o rebanho
Para o Outeiro
Levando na mão o cajado
Que é maior do que eu
E no coração
Os meus sonhos de infância…

Quando passo rente a ti, sem te ver
Decifras no meu olhar
Algo que me é indecifrável
Observas-me o corpo
Pequeno e robusto
Desprovido de graça e beleza
Movendo-se com pressa
A caminho do Outeiro

“ Que levará ela no pensamento?
Coisas sonhadas
E o sonho de que algum dia as viverá?
Ela que não tenha ilusões…
As coisas sonhadas são só sonhos
Retardados e amarelados pelo Tempo.
As que nós, um dia, viveremos
Essas sim, serão as realidades
Parecidas com os nossos sonhos… “

Eu sei…

E pelo caminho
Ouves-me assobiar uma cantiga semelhante
À que a tua mãe canta à noite
Ao adormecer o teu irmão.
Não estou contente nem triste.
Para mim, a Vida não tem mais sentido
Do que aquele que eu lhe dou

Sento-me na pedra lisa do Outeiro
Sem pensar que ela existe
E o que vejo todos os dias
Todos os dias é como se o visse
Pela primeira vez.
E o meu rebanho
Que pasta sem conhecer outro Outeiro
É feliz por isso…

Por não conhecer outro Outeiro.

Manuela Fonseca

sábado, 28 de agosto de 2010

Não te detenhas em mim




Não te detenhas em mim
Deixa apenas que me enrosque
No teu sofá verde água
E poise o rosto no teu colo
Sentindo as tuas mãos
Deslizarem pelo meu cabelo
Que escorrega sem pressa
Descobrindo os meus ombros
Despidos de sedas orientais

Um dia…

Visitar-te-ei todas as noites
Sem nunca me veres
Mas sempre me sentirás.

Manuela Fonseca

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Na intensidade dos gestos


Na intensidade dos gestos
Só sei navegar
Pela ausência do mar
Que há muito tempo
Me deixou em choro
Compulsivo

Navego em teu olhar
Descubro segredos tardios
Pardos de entender
Palavras esculpidas
Sentadas à beira da vida
Que abriste docemente

Num golpe profundo
Parti o meu navegar
E logo me perdi
Arrependi
Arrefecendo o horizonte
Rude de caminhos
Fraco de sorrisos
Forte de outros amores

Diante do meu último olhar
O teu rosto fui buscar
E a partilha era feita de ternura
Onde eu já não cabia
Nas vidas em que fui navegar
Para a ti te as entregar

Manuela Fonseca

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Uma metáfora é tudo isto


Uma metáfora é tudo isto e ainda (deixa ver se me recordo) dos sorvetes que comia num lambuzar constante de cara virada ao contrário para ver os olhos velhinhos da minha avó que me espiava dentro dos 80 anos e me comia os restos que me sobravam do prato para eu não levar pancada e também da sua própria fome de comeres bem confeccionados.

Manuela Fonseca

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Esboço de Alzheimer II


Pendurada na sua própria dor
Desfolhava as mágoas guardadas
Como quem reza um terço
Esperando um milagre
Que nunca chega por falta de fé anunciada

O olhar parou no degrau do passado

Já nada esperava
E a esperança dançava-lhe
Nas mãos trémulas
A dança eterna
Do destino prometido

Abriu um livro ao acaso
E com a voz entorpecida pela fatalidade
Bebendo lágrimas de medo
Ela leu:

“Sê como a árvore do sândalo que perfuma até o machado que a corta”

Manuela Fonseca