
Poder-se-á falar de poesia sem falar do autor? A resposta é afirmativa, no entanto, no caso deste POESIA SEM REMETENTE, a tarefa é árdua e bem mais complicada, não só pelo conhecimento que tenho da autora, mas sobretudo, pela dificuldade em distinguir o que é âmago e estro da poetisa.
Sendo certo que um criador, seja qual for a arte, deixa sempre um pouco de si em cada criação, não é menos verdade que alguns deixam quase tudo fazendo do objecto criado uma extensão de si próprio. Mesmo sendo o poeta um eterno fingidor, não é raro encontrar quem empregue elevadas doses da sua realidade no processo criativo. Sei que a minha próxima afirmação não é consensual mas creio que este estilo de criação, em que o autor não se separa da pessoa física que é, transforma o objecto criado num veículo de aproximação entre o autor e os seus leitores.
Neste caso concreto, que nos traz hoje aqui, independente da consciência, ou não, desse feito, a autora oferece-nos uma poesia de quase confissão através da qual se desnuda, revelando-nos o seu sentir mais reflexivo, intimista e, atrevo-me mesmo a dizer, mais humano.
Para quem tem o privilégio de conhecer pessoalmente MANUELA FONSECA, não será difícil encontrar, em cada um dos poemas deste livro, uma ou mais características que a definem e identificam. Para além do SER pensante, preocupado, inquiridor, inconformado e, até mesmo, rebelde, encontramos vestígios da mulher afável, carinhosa, meiga, sentimental e apaixonada.
Cada um dos oitenta e um poemas deste livro é-nos oferecido como peças de puzzle que juntas nos dão o retrato quase perfeito da autora que, tal como nós, tem virtudes e defeitos, sonhos e utopias, alma e coração.
Se atentarmos mais em pormenor esta obra, verificamos o quanto de telúrico ela comporta e o grau de emotividade nostálgica que suporta esse telurismo.
Se mergulharmos bem fundo na poesia de MANUELA FONSECA, vamos sentir cada poema como uma vaga de sentimentos, que também são os nossos.
E é neste ponto que reside, quanto a mim, o maior trunfo da autora; a capacidade de descodificar a humanidade usando as suas percepções como fonte de ingnição ao nosso pensamento. Haverá algo mais importante num livro que a capacidade de nos fazer reflectir?
Este livro pode conter POESIA SEM REMETENTE mas ninguém negará a existência de destinatário para cada um dos poemas que o compõem. A poesia deste livro não é para ninguém em particular, é para todos nós, leitores. Se soubermos ler cada palavra, cada verso, cada poema, se soubermos interpretar cada sentimento, pranto ou grito, cada alegria, sorriso ou gargalhada, então saberemos quem é MANUELA FONSECA na mais genuína das suas formas.
Emanuel Lomelino
28/05/2011
















