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Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010

Apresentação do livro "Poesia sem remetente", de Manuela Fonseca, no acto de lançamento, a 11 de Dezembro de 2010



Cabe-me apresentar obra e autora, nesta sessão de lançamento do livro "Poesia sem remetente", de Manuela Fonseca.

Primeiro vou falar-vos da mulher, esse ser humano amigo, donde brotam sorrisos, dos mais lindos e sinceros, donde surgem gestos de carinho, no seu consecutivo movimentar, por entre aqueles que considera e gosta.

É, por demais, insignificante qualquer expressão que possa adicionar às que se vão dispondo ao longo dos tempos, do seu conhecimento. Tudo se torna insuficiente para definir os valores que emergem deste ser humano.

A mulher que está aqui, a meu lado.

Quanto à autora, propriamente dita, essa assume o relevante estatuto de poder fazer brotar no papel, as suas majestosas e sentidas palavras, pela singela forma de como observa tudo o que a rodeia e pelas enormes qualidades que lhe são intrínsecas. E isso fá-lo tanto no registo em prosa, como na forma de poesia.

A sua escrita discerne-se pelos maravilhosos conteúdos, a que o leitor não é insensível.

Manuela Fonseca é um grande exemplo de humanismo.

Hoje é um privilégio estar aqui, junto dela e desta sua magnífica obra, que penso vos tocará em todos os vossos sentidos, assim que com ela puderem interagir e com o seu valioso conteúdo.

"Poesia sem remetente" é uma global introspecção aos meandros memoriais e do sentir da mulher, levados à escrita pelo regaço da autora de uma forma carinhosa, intensa e viva.

Manuela Fonseca seduz-nos na constante leitura que fazemos, daquilo que escreve.

Dividindo esta obra em cinco partes, faria uma abordagem a cada uma delas, aludindo a alguns dos poemas que as mesmas englobam.

Uma primeira parte, ou grupo, que se refere a um âmbito mais restrito e verdadeiramente representativo do seu crescer em família. Aqui fala dos progenitores, dos descendentes, das suas raízes.

Momentos mais tristes e outros mais alegres, como acontecem com qualquer vivência humana.

Aqui exterioriza factos escondidos num percurso de vida que interiorizaram o seu ser, ao longo de muitos anos, e múltiplas experiências dessas vivências. Um misto de saudade e alegria exposto em palavras sentidas, num contexto delicado e refinado pelos valores que, efectivamente, o constituem.

A relevância de uma sensibilidade ímpar que se torna autêntica, na poesia constante deste livro, que se comprova pelo que passo a ler.

Senta-te numa cadeira que não dizes ter
Mas sim ganhar.
Fica contigo e permanece.
Escolhe um sorriso
Do leque da tua alma
E oferece-o à vida
Num gesto de ternura
E coragem.

Manuela Fonseca


São autênticas "Disciplinas da Alma", que se sentem em suas palavras.


Passamos a uma segunda parte, um tanto dolorosa, onde os aspectos da natalidade, da sobrevivência, da resistência estão registados de sublime maneira. São abordados os mais diversos problemas sociais, sempre com um olhar crítico e realista. O sofrimento das crianças, a fome e a guerra são outros assuntos aqui ventilados.


O poema que se segue interage com alguns desses males sociais.


A VALSA DA FOME


Vem dançar comigo

A valsa da fome

Conhecer a criança

Que deixou a força

Em outros olhares


Vem sentir comigo

O lugar vazio

Onde ela chora

As tuas lágrimas

De indiferença


Vem comigo

Conhecer

A valsa da fome


O outro lado de ti!


São deambulações da palavra no sentido de referenciar todas as negruras que atingem todos aqueles que têm fome. E cada vez mais este desgovernado mundo, ou seja governado com interesses maquiavélicos e mesquinhos, leva a estes resultados e a toda a sua evidência, sem quererem encontrar uma solução, por imperativo dos grandes poderes existentes nesta grandiosa bola, que é o planeta Terra.


Este aspecto da vivência humana, cada vez mais negativo, tem grande incidência nas crianças.

Crianças sem futuro, logo a partir de serem geradas.

Depois nascem sem qualquer esperança de vida.


O poema que se segue é para meditarmos sobre este problema que assola, cada vez mais, o mundo em que vivemos.


CRIANÇA


Não semeou o trigo

A lágrima secou

Olhos acordados [vidrados]

Ausência de vida [Esperando]


Criança

Não te vás!


Temos um terceiro grupo de poemas que fazem estabelecer a esperança de um mundo melhor, ainda que efémero. O aspecto harmonioso desenvolvido em suas palavras, onde fala dos natais de uma vida, nas lembranças da sua infância e juventude. Os encontros de tempos que ecoam em sons ora relembrados e em memórias de imagens inesquecíveis.

O natal, como alguém já disse, deveria ser quando um homem quisesse.


Mas nunca assim é, e essa quadra torna-se, então, na mais bela do ano, ainda que envolta num pouco de hipocrisia, pela troca das famigeradas prendas e lembranças.


Todavia a reunião familiar, e o calor desse ambiente, supera todas as negatividades.


São "Dezembros de memória".


Aquela que se estabelece por quarta parte traz-nos a mensagem da paz, a pomba branca da compreensão.

A afinidade entre seres humanos que poderá resultar em uniões, umas profícuas, outras nem tanto, mas todas com enormes momentos, mesmo que ténues, de amor.

A paixão, que muitos têm por súbita, desenvolve e empolga circunstâncias indefinidas, mas empolgantes, sobremaneira.

A oferta de um ramo de flores, um passeio pelos campos plenos de verdura incomparável, um afago, um carinho, um pulsar constante, um abraço e um beijo.

Tudo isto se revela na poesia da Manuela neste grupo que encerra dos mais belos versos sobre esta temática. Um exemplo aqui vai.


AMAR-TE É CONHECER O MUNDO


Com os teus olhos

E as minhas mãos

Fizemos aquele amor desejado

O olhar abusava do saber sentir

E a textura da pele entrelaçada

Em sensualidade oculta

Ofereceu-nos grandes palavras

Onde sempre descobríamos uma estrela

Que nos vinha tremeluzir devagar


Amar-te é conhecer o mundo!


Por último, aquele que considero o grupo da palavra (o quinto), onde se desenrolam os textos de índole mais livre, no tocante ao conteúdo poético, e de matéria mais ampla e plural. Para além disso aqui se registam algumas dedicatórias referenciais e de relevante agradecimento, onde a autora se dá em palavras, às palavras daqueles que mais lhe tocaram no cerne, neste mundo da escrita e de toda a sua envolvência.


Disso deixo aqui um exemplo:


MARGEM DE RIOS


Dormias embalado em cânticos

De rochedos ausentes

O vento soprava-te segredos

De outras margens distantes


Ouvia-te em doces mortes

E a vida regressava fantasma de mim

Margens fechadas e suspensas

Aleatórios rios de lembranças

Ressurgiam no respirar

De te tornar a ver

Ali sentado

Despeitado

Ornamentado de um sentimento

Não desejado


E o serpear dos mares

Enchia o teu orgulho

De agonia perfeita


Este é um livro que apetece ler e reler e de onde poderia ter retirado mais excelentes exemplos para sustentar e definir cada um dos grupos que referenciei.

"Poesia sem remetente" não precisará de grande publicidade para ter um enorme sucesso. Quem gosta de poesia não poderá deixar de o ler. Recomendo sua urgente leitura, por inúmeras vezes. É um livro magnífico.


Quanto à autora, Manuela Fonseca, só tenho a agradecer-lhe o convite que me fez para apresentar esta grandiosa obra e estar aqui, à hora do seu lançamento, em livro.

Não sei se estarei à altura do momento, mas que me deu um enorme prazer interagir com as suas palavras nesse contexto, disso não tenho dúvidas.


Por tudo isso, resta-me agradecer carinhosamente.


Termino com um excerto das palavras da própria autora:


"Hoje choveu sobre a minha infância. Todos os vestígios que os meus pés deixaram no chão desapareceram. Tento lembrar-me dos meus antepassados. Alguns retratos da minha mente vêm-me à memória, quantidades indeterminadas de imagens..."


"... A passos largos aproximei-me do tempo das coisas secretas, cavalguei para o lado dos segredos e das mãos dadas onde desejei, embriagada em perfume, que não mais chovesse na minha infância."


Obrigado Manuela!


António MR Martins


Lisboa, 11 de Dezembro de 2010


Auditório do Campo Grande, 56


Obrigado meu querido amigo, por todas as palavras, todos os sorrisos e pela imensa Amizade que nos une!


3 comentários:

Bogdan Burca disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
António MR Martins disse...

Foi um prazer enorme apresentar a tua belíssima obra, uma tarde inesquecível.
Nada mais tenho a acrescentar.
Ah, não se esqueçam de adquirir este extraordinário livro de poesia, muito bem escrito, muito sentido e deveras relevante.
Um livro repleto de humanismo.
Obrigado Manuela por seres como és e seres quem és!

Beijinho

António MR Martins

Anónimo disse...

As palavras do nosso amigo António MR Martins, também ele um grande poeta, fazem jus à pessoa que és.
Linda, amável, talentosa e dona de uma sensibilidade intrínseca.
Mesmo antes de te conhecer,gostei de ti através da tua escrita. Agradável, diria doce até mesmo quando falas nas coisas amargas da vida. Este livro de poemas confirma a poesia que existe na tua alma.
Felicidades minha amiga, que bem a mereces.
Um beijo
M. Fátima Gouveia